Do início ao fim... seu fim, meu fim...


Desde que descobri que estava gravida, passei a viver uma luta diária contra mim mesma e contra aos meus dramas. Principalmente contra ao meu egoísmo; Minhas frustrações me impediram de sentir felicidade por estar gerando um vida... mesmo assim, mesmo não me sentindo feliz, queria sentir  que meu filho estava bem.
Assim que peguei naquele exame dia 26 de janeiro, passou um filme na minha mente, foi um filme de quase morte ( eu sei que é uma coisa terrível de se dizer), lembrei do quanto sonhei com tudo ao seu tempo, com tudo ao seu lugar; O meu egoísmo aflorou, porque nada mais era pra mim, nem perguntas, nem respostas, nem presentes. nem carinho nem nada, nada era para mim. - Muita gente pensando nessa criança, e ninguém pensando em mim. Quem pensa em mim? Quem quer saber se eu to bem? ninguém mais pensava em mim... Eu pensava - quem disse que eu quero ser mãe,? quem disse que eu sei ser mãe quando eu ainda preciso tanto da minha mãe? Então chorava, chorava e chorava.
Me diziam:
- chore não, eu te amo e ter uma família sempre foi seu sonho.

Os meus pensamentos sempre foram contrários aos do pai do bebê. Ele que era perfeito pra mim, que me carregava no colo, adorava meus olhos e minha boca, agora só queria saber da minha barriga, e seus planos que era nosso casamento, passaram a ser berço, fralda e até escola já tinha, aff, isso devia me deixar feliz, afinal era meu filho. Qual o problema comigo?

Chorava e vivia pelos cantos da casa, não tomava banho direito nem queria escovar os dentes, com muita luta atendia algumas ligações, Dyana, Jane, mainha e painho e a pastora Valéria. Me alimentava bem, mesmo sem querer, porque eu pensava - pra ter um desastre de mãe como eu tem que ser saudável.

 Minha amiga passou a ser uma cadeira de balanço que eu sentava todos os dias para pensar nos aspectos práticos da situação. Depois de 3 assim, as coisas pioraram, agora eu não saía mais do quarto, não via ninguém da casa e nem quando ele entrava no quarto eu deixava acender a luz, e todos com muito amor pensavam que eu estava apenas enjoada, comia ali mesmo no quarto escuro sem muita emoção.

Permaneci assim rejeitando a situação durante cinco dias; cinco dias esses que quase me levaram a loucura, se não fosse o pai do meu filho entrar em cena...
 -Agora já chega! você tem toda razão. Essa criança não merece uma mãe como você!! E esse "você" foi com um eco daqueles. Enquanto todo mundo pensa nele com carinho vc queria que ele nunca tivesse existido. -você é uma egoísta, sente raiva do seu filho só porque ele adiou um pouco seus planos. Arregalou os olhos bruscamente e em tom mais alto terminou com um tiro de misericórdia  -Grande cristã você é! Se você não quer essa criança, pode deixar ela aqui e ir em embora, garanto que amor não vai faltar.
  Lágrimas muitas e muitas lágrimas.

Preciso nem dizer que comecei a reagir a partir daí, pedi desculpa a Deus pelo que fiz durante esses cinco dias... e depois pedi perdão ao meu filho.
É ai onde esta o x da questão, Deus ele te perdoa quanta vezes for preciso mais isso não impede que as consequências do seu erro cheguem até você, porque Deus é justo, e as consequencias vem para que haja um aprendizado e cura interior.
Passei a sentar na cadeira de balanço e cantar para o meu filho, fazer carinho e curtir a gravidez, o sétimo dia da descoberta parecia ser o primeiro. Comecei a ver que talvez as coisas estivessem dentro de uma plano que não era meu e que eu que nada sou, não tenho controle sobre tudo.
No oitavo dia ( sei os dias contados por que escrevo esse texto com a ajuda do meu diário manual) mais também lembro como se fosse agora, fui tomar banho feliz para ir dar uma volta na pracinha perto de casa com o pai do bebê, então outro drama começou na minha família...
Tinha sangue, sangue e cólica, corremos para a maternidade pediram um ultra-sonografia de urgência, e essa foi uma das muitas  idas e vindas que fizemos, quase que duas vezes por semana estive por lá, na primeira ultra, não deu pra ver nada, na segunda o saco gestacional já aparecia mais sem o embrião, na terceira ainda sem o embrião apareceu um descolamento de placenta, e desde a primeira ida ao hospital já fiquei de repouso absoluto, levantando apenas pra tomar banho. Antes não queria banho por tristeza e agora por medo de perder o meu filho;

Na quarta ultra apareceu Júnior, pois é, já tinha nome e nem se contava com a possibilidade de ser uma menina ( claro, eu não optava por nada, sempre neutra a essa escolhas).

Foi então que coisa mais emocionante de toda minha vida aconteceu, eu ouvi o coração do bebê bater forte e rápido, era como se dissesse sem dizer," mamãe to aqui eu te amo", eu chorei de emoção e comecei a ter raiva de mim por rejeitar aquela pessoinha que ia me amar pro resto da vida, e eu dizia" Deus como fiz isso? como eu pude ser tão egoísta e cruel? como? saí de lá muito feliz, mais com muita raiva de mim por ter feito tudo isso, cada vez que eu fechava olhos no caminho pra casa, eu ouvia nitidamente o som do coração do meu filho, e não cansava de dizer em alto e bom som "meu filho" e não cessava também(como até agora) o meu pedido de perdão a Deus.

 Passei alguns dias bem, de repouso, mais bem; Até que no dia do meu aniversário fui acordada por uma dor quase insuportável as 7h da manhã, eu nem conseguia gritar, gemer ou coisa assim de tanta dor, por sorte o pai do bebê que dormia perto de mim percebeu e veio até onde eu esta e trouxe o remédio que aliviou a dor abdominal que eu sentia, contudo a dor no coração e o medo só aumentava.

O carnaval chegou, e as menina em casa me dando carinho e atenção em dobro, apenas no último dia resolveram sair. Enquanto elas se arrumavam eu tomava banho pra deitar novamente, percebi um sangramento intenso, mais fiquei na minha não queria estragar o único dia de festa das meninas.

- Você esta bem? - sim pode ir. -qlq coisa ligue que a gente volta. -certo
.
Depois de um bom pedaço que tinham saído fui ao banheiro ver como estava o sangramento e começou a ser mais forte a cada minuto, ele me olhava sem saber o que fazer tentando conter meu choro, até que ele muito nervoso sua pressão começou a subir...

 Não sentia dor, nem um pouco nem de longe, mais jorrava sangue e a vista escurecia.  Não deixei ele avisar a ninguém, fiquei mais um vez pedindo perdão a Deus por tudo que senti no começo. Chegaram em casa as oito da noite e pronto, foi elas entrarem em ksa e eu começar chorar desesperadamente e me levaram para o hospital,  direto para o soro com remédios para segurar o bebê, a médica de plantão já havia me atendido algumas vezes mais não lembrou de mim, me aconselhou a não chorar daquela forma pra não descolar mais a placenta, quando o sangramento diminuiu ela me levou para fazer o toque e disse

-Preciso ser sincera com você, seu útero esta fechado, mais a possibilidade de você ainda esta gravida é minima, vou liberar você  para fazer uma ultra e trazer aq amanha para o médico que estiver aq de plantão avaliar. Sai de lá com coração cheio de esperança, mais tinha medo até de falar, fiz repouso de tudo até o dia seguinte que era a quarta feira de cinza e não tinha como realizar exames pela manhã.

Não tinha mais sangramento, e meu coração sábia que ele meu filho ainda estava lá, dito e feito! ouvi seu coração...  ouvi o seu adeus. Até terminar a ultra não tinha sangramento aí me sentindo feliz e segura por ter visto meu filho eu disse
 -Vamos para casa não precisa voltar na maternidade, ele esta bem. e Vanesca disse - Vai voltar lá sim.
Entrei feliz, subi as escadas e me escorei na parede enquanto Vanesca ia dar a minha entrada, foi ai que... (chorando)
- Vanesca olha para trás. Tinha sangue, muito sangue e minhas lágrimas lavando o chão.

As enfermeiras me levaram, tiraram minha roupa, e disseram vista essa e qlq coisa chame to aq na porta do banheiro. Não precisou chamar a maternidade inteira ouviu meu grito que não era de dor e sim desespero ao ver o meu filho descer por um ralo, a enfermeira abriu a porta me olhou firme, segurou minha mão querendo chorar também e disse: Calma você acabou de abortar, e eu gritei ela e disse -mentira! não tem nem meia hora que eu fiz a ultra e vi ele bem, ouvi seu coração, eu ouvi seu coração, eu ouvi seu coração repeti isso muitas e muitas vezes, ela me vestiu, me colocou um pano entre as pernas e disse vamos esperar o médico sair da cirurgia agora tenha calma.  (Vanesca e ele lá fora desesperados). Deitei, fechei os olhos e repetia mentalmente Deus me perdoa, Deus me perdoa, Deus me perdoa...

O médico chegou fez o toque... me fez contar sobre tudo, viu todas as ultras e me disse calmamente, você perdeu o bebê!    -Mais Doutor eu acabei de ouvir o coração dele. E não sei se por maldade ou brincadeira ele me disse: - Ele queria se despedir dessa mãe chorona.

Queria sair dali correndo, eu não aceitava o fim. Ele me perguntou que horas eu havia comido, e como eu sabia que para tomar anestesia não pode comer, eu disse: comi tem uns dez minutos, a enfermeira me olhou e disse mais vc ta aq faz muito tempo, eu disse: eu comi sim! então ele foi obrigado a me liberar, dizendo volte amanha bem cedo para fazer o procedimento ginecológico terrivelmente conhecido como curetage.  Ele não percebeu mais aquilo soou para mim como: Volte amanha para terminar de jogar seu filho pelo ralo.

Todo mundo em casa estava triste, e a pior parte foi dar a notícia aos meus pais. Ninguém sabia o que me dizer, nem como agir, e eu chorava por saber que dentro de mim só tinha restos do meu filho... Os vizinhos queriam me ver, a família dele ligava a todo momento, os amigos deles choravam junto com ele... cheguei lá bem cedo logo fui atendida, por um médico, que já não era mais o do dia anterior, ele fez minha curetage, e quando recobrei os sentidos a enfermeira, Catia o nome dela, disse que eu quando estava meio grog da anestesia chorava muito e chamava por um tal Juninho.

Vanesca e ele ficaram comigo o tempo todo, quando podia ficavam no quarto onde eu tava e quando não podia ficavam do lado de fora da maternidade na calçada, meu amigos estiveram comigo em oração, tenho certeza disso, e meus pais estavam lá com todo coração.

Depois da alta fui para casa achando que agora era só me recuperar do trauma, e tentar conviver com a dor da perda do meu filho, mas não era só isso, antes de sair de lá eu disse:   -Vanesca, me sinto estranha, acho que esse médico fez algo errado. -impressão sua.

3 dias após, tive um susto no banheiro e dei um pulo forte para trás, na hora nada aconteceu, mais de madrugada, começou um forte sangramento novamente, e de manha piorou eu parecia esta sofrendo o aborto outra vez, voltamos a maternidade e na ultra que pediram, foi visto que precisava passar por outra curetagem e retirar o mais restos de placenta.

 Na hora só pensei na minha mãe, em como ela ficaria se  Deus me levasse, então liguei para meus amigos... amigos que confio tanto porque sei que são amigos de Deus e pedi que se algo acontecesse, que eles olhassem por ela, orassem por ela e ficassem sempre por perto dela, pensei no pai também, porque sei que ele me ama mais ele já tem sua própria família e para ele seria mais fácil, e pensei nele sem mim, o pai do meu bebê... e Deus sabe tudo que pedi por ele.

Fiz a segunda curetagem, mais antes de entrar naquela sala eu pedi a Jesus que fizesse aquela cirurgia, que ele guia-se a mão daquele médico, que se não fosse ele o médico daquela cirurgia eu não sairia bem.   E de fato estou bem. Ainda de repouso procuro não pensar muito, tenho sorrido bastante com as palhaçadas que ele faz o dia inteiro pra me ver feliz.

Não é fácil conviver com as batidas do coração do meu filho que ecoam na minha mente a cada batida do meu coração, não é fácil conviver com seu adeus, não é fácil olhar pra mim, me encarar e saber que você não esta mais aqui, nada foi fácil, e nada será fácil sem você, eu sei que os otimistas dizem: você pode ter outro filho! E sei que se Deus permitir posso sim, mais eu não quero outro, queria você.


Sem mais... De uma pessoa que nunca será a mesma.

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