O dia da separação...

              
Parece até brincadeira — mentira, para ser franca —, mas o que vou lhe contar é verdade verdadeira. Vi Arnold Schwarzenegger na fila do terminal de ônibus com a sua jaqueta de motoqueiro e óculos escuros a me dizer: “Hasta la vista, baby”. Sacou a sua arma e com um tiro certeiro varou meu coração antes que eu lhe pedisse um autógrafo.

Arnold se vai... Fura a fila, senta na janela e ainda por cima pega o lado da sombra. Eu fico... Fico estrebuchando no chão sem ninguém perceber: é só mais uma preta na merda se atrevendo a viver. Mas quem disse que eu queria a vida? A bala de Schwarzenegger não exterminou meu futuro; meu futuro já havia sido eliminado há muito tempo. O tiro do Terminator veio para me libertar. Entretanto, aqui estou com o coração vazado e nada de morrer.

Talvez só esteja lhe contando isso, por ser verdadeira a afirmação de que antes da morte se passa uma breve retrospectiva da vida. Eu vi tudo. Maldita memória que não me fez esquecer todo mal que sofri; todo mal que fiz. Eu me vi chorando as escondidas por pessoas que me rejeitaram; eu vi os olhos alheios perderem o brilho por minha causa. Era tudo tão real... Mas claro que era real! Se fosse algum filme estaria tocando Love Story e nessa história Arnold Schwarzenegger não caberia nem como figurante. Do que vi, fui testemunha e ator. Minha memória poderia até me privar de certos detalhes, mas a maldita insistia em me mostrar aquilo que aconteceu sem nenhum efeito especial.

Penso que maldizer a minha memória seja incoerente. Ela me poupou de cenas que provavelmente não são muito agradáveis, como a minha vinda ao mundo, uma tapinha no bumbum por um médico que insiste em ser chamado de doutor, e por aí vai. Amaldiçoei a minha memória por não ter tido boas histórias em vida; e, por me privar dos bons momentos da minha infância, onde é bem diferente de hoje que já se nasce com um celular pendurado no cordão umbilical.


E aqui estou eu, apavorado, com uma agonia que deveria estar me matando, mas só prolonga minha pseudo-vida. Cada segundo que passa soa como uma eternidade; já chego a me perguntar se alguém vai notar que estou baleado e semi-morto... Tomara, Deus, que não! Pois eu não quero ser socorrido para a vida. Meu último desejo é que Arnold Schwarzenegger durma no ônibus, retorne ao terminal e volte para dar cabo do serviço.




fred & Cajuh

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